Brasil na Copa do Mundo de 1994: tetra com Romário no auge, Pelé na tribuna e pênalti de Baggio nas alturas

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O futebol às vezes ensina: nem sempre o planejamento perfeito dá certo no fim, como também é verdade que a mais conflituosa das preparações pode, por vários motivos, te levar à conquista. Se quiser uma prova disso, basta olhar tudo que a Seleção Brasileira viveu até chegar ao sonhado tetracampeonato mundial de 1994.

Inspirada na Alemanha, campeã em 1990 nas mãos de Franz Beckenbauer, a CBF decidiu inovar na hora de escolher o novo técnico da Seleção: Sebastião Lazaroni, esculachado na Copa do Mundo da Itália, deu lugar a Paulo Roberto Falcão, um dos craques do saudoso time de 1982 e que, à época, já trabalhava como comentarista de futebol.

Falcão teve a ingrata missão de reformular a Seleção e mesmo assim conseguir resultados. A estreia com derrota por 3 a 0 para a Espanha mostrou que não seria nada fácil. Foram precisos oito jogos para que o técnico ganhasse pela primeira vez, em um trabalho que durou só um ano, até julho de 1991. De legado, apenas o “descobrimento” de nomes como Cafu, Márcio Santos e Mauro Silva.

O cargo voltou para as mãos de Carlos Alberto Parreira, já mais experiente do que em 1983 e atual vice-campeão brasileiro com o Bragantino. As críticas, porém, eram imensas, porque a Seleção de fato não conseguia encantar como o público esperava. Tudo piorou assim que as eliminatórias começaram e o Brasil, que jamais havia perdido uma partida dessas, caiu para a Bolívia na altitude de La Paz, com um frango histórico de Taffarel.

O excesso de pressão fez Parreira cogitar um pedido de demissão, mas o técnico foi convencido por algumas das lideranças do grupo. A promessa era que eles reagiriam nos próximos jogos. Como forma de união, Ricardo Rocha sugeriu aos jogadores que entrassem de mãos dadas nos jogos seguintes, uma demonstração de que a Seleção Brasileira estava fechada e protegida contra as críticas.

Mas faltava uma peça. Destaque de um Barcelona encantador na Europa, Romário não era chamado desde meados de 1992, quando bateu boca com Parreira e Zagallo por ficar no banco de Careca em um amistoso contra a Alemanha, em Porto Alegre. Para o Baixinho, não fazia sentido vir da Europa só para atuar alguns minutos. Para a comissão, um gesto que não poderia ser ignorado.

O perdão veio na hora que a Seleção precisava. Em setembro de 1993, o Brasil revivia os traumas do passado ao receber o Uruguai, no Maracanã, precisando da vitória para ir à Copa. Parreira, então, chamou Romário. O que se viu naquela tarde foi talvez a maior atuação individual da carreira do atacante: caneta, chapéu, dribles, velocidade, ousadia, finalizações. Faltava só o que o Baixinho tinha prometido na véspera: dois gols. Eles vieram no segundo tempo, de cabeça e em arranque com direito a drible no goleiro.

O Brasil estava na Copa. Romário também.

“Pode perguntar a qualquer pessoa que esteve no Maracanã e ela dirá que talvez tenha sido o jogo mais f… que um jogador de futebol já fez, principalmente com a camisa da Seleção. Em uma escala de 1 a 10, eu levei 11”, discursou o craque, sem modéstia.

Com uma geração formada por remanescentes de 1990 (Taffarel, Jorginho, Branco, Aldair, Ricardo Rocha, Dunga, Bebeto, Romário e Müller) e novidades (Cafu, Leonardo, Raí, Zinho e o adolescente Ronaldo, mais tarde batizado de Fenômeno), a Seleção saiu completamente desacreditada do Brasil para os Estados Unidos. Apesar disso, o Baixinho exalava confiança. “Se não formos campeões, podem me cobrar”.

Foi Romário quem abriu caminho para a campanha naquela Copa, ao marcar o primeiro da vitória por 2 a 0 sobre a Rússia – Raí completou, de pênalti. O astro marcaria novamente contra Camarões (3 a 0) e Suécia (1 a 1). Nas oitavas de final, sofrendo com um calor insuportável e a expulsão precoce de Leonardo por cotovelada em Tab Ramos, o atacante consagraria Bebeto com uma assistência contra os Estados Unidos. Como retribuição, ouviu “Eu te amo” do companheiro de ataque.

A dupla voltaria a fazer diferença nas quartas de final contra a Holanda, em uma vitória apertada que teve um gol de cada e foi definida em uma cobrança de falta incrível de Branco. Na semifinal, de novo Romário apareceu para brilhar: no meio de gigantes zagueiros da Suécia, o Baixinho desviou de cabeça para calar o “falastrão” Ravelli e carimbar o passaporte brasileiro para uma final de Copa, o que não acontecia desde o tri, em 1970.

No Rose Bowl, em Pasadena, Brasil e Itália decidiriam quem seria o primeiro tetra da história das Copas. Um apostava em Romário; o outro tinha em Roberto Baggio a maior esperança. Em uma final com dois craques deste tamanho, o empate sem gols no tempo normal e na prorrogação frustrou. “Uma final sem gol é o pior para o espetáculo”, criticou Johan Cruyff.

O título sairia mesmo nos pênaltis, na primeira e única final da história das Copas que acabou sem gols até hoje. Baresi e Márcio Santos perderam as cobranças logo de cara. Albertini pôs a Itália em vantagem, mas Romário, com auxílio crucial da trave, empatou. Evani fez 2 a 1 para os europeus, Branco voltou a igualar. Eis que Massaro foi para a cobrança e parou nas mãos salvadoras de Taffarel, o que permitiu a Dunga, o mesmo execrado em 1990, botar a Seleção pela primeira vez em vantagem.

O último pênalti italiano seria de Baggio, o melhor jogador do mundo na época, mas que disputou a final longe das melhores condições físicas. Ainda assim, ninguém esperava o erro. O camisa 10 foi para a cobrança e, como num passe de mágica, viu a bola subir, passar por cima do travessão e morrer bem longe do gol de Taffarel. O Copa do Mundo era do Brasil. O tetra era do Brasil.

“Acho que foi [Ayrton] Senna quem me fez perder o pênalti. Foi ele quem pegou a bola e puxou para cima”, chegou a declarar Baggio, em tom de brincadeira, referindo-se ao piloto brasileiro tricampeão do mundo que havia falecido em um acidente em Ímola, semanas antes da Copa. Senna não teve tempo de ser tetra. A Seleção Brasileira, sim.

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